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O educador também está na linha de frente, assim como médicos e enfermeiros diante da pandemia do novo coronavírus. Gestores e professores se deparam com uma situação inédita que requer soluções que ainda não conhecemos direito. No pós-pandemia, a grande tarefa será acolher toda uma comunidade traumatizada com perdas humanas e financeiras, e com ela construir um novo futuro.   É o que sinaliza Claudia Costin, em entrevista exclusiva ao SINESP.

Professora universitária da FGV-RJ e de Harvard, além de diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais- CEIPE-FGV, Claudia Costin já foi secretária Municipal de Educação do Rio de Janeiro e é especialista em políticas públicas - tendo atuado como consultora dos governos de Angola, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe. 

>>> Confira abaixo a entrevista com Claudia Costin, especialista em políticas educacionais

EntrevistaClaudiaCostin

SINESP - O que a sra. achou desse recente julgamento do STF sobre ideologia de gênero e Escola Sem Partido?

Claudia Costin - Eu fiquei triste pelo Brasil ter feito esses questionamentos e fiquei feliz porque a coisa não avançou como poderia ter avançado. Ideologia de gênero é como é chamada equivocadamente a ideia de que não é importante que as crianças tomem contato com a noção de que existem diferentes possibilidades de manifestação da sexualidade e diferentes orientações sexuais. Isso é tirar da criança a possibilidade de se sentir em paz com a sua própria identidade e de tratar com respeito a identidade dos outros. Não há ideologias de gênero, há identidades de gênero e isso é trabalhado pela Ciência. Não é uma questão de opinião, isso é um achado científico. Quer discordar? Pode! Desde que traga uma contribuição por meio da Ciência e não de mera opinião. Já quando a gente fala da Escola Sem Partido, em primeiro lugar, é bom a gente entender que, sim, doutrinação existe desde que a escola existe. Desde doutrinação religiosa até opiniões sendo apresentadas como a verdade. Mas daí imaginar que para solucionar isso a gente deveria colocar vereadores... O que resolve esse problema é o coletivo da escola discutindo como ensinar melhor. Aí entra o papel do gestor escolar. Tem milhões de formas da própria escola lidar com eventuais problemas desta natureza que possam emergir em ambiente escolar.


SINESP - Ou seja, por exemplo, a participação da comunidade por meio do Conselho de Escola?

Claudia Costin - Por meio do Conselho de Escola, com a participação do gestor escolar ou dos colegas, mas a gente discutindo isso. A doutrinação pode acontecer até sem querer. O professor manifesta a sua opinião e se esquece de deixar claro que aquilo é a opinião dele. Nós somos humanos e, portanto, falíveis. Mas isso deve ser resolvido entre pares ou entre o Conselho Escola-Comunidade. Imaginar que vereadores são fiscais do conteúdo ensinado na escola não faz sentido nenhum porque não é a área de especialidade deles e nem se trata dos seus familiares. Então esse é um ponto importante. Não quer dizer que os vereadores não têm legitimidade para fiscalizar o uso do dinheiro da Educação no município ou coisas assim.


SINESP - Com a pandemia, qual seria o papel do MEC e dos conselhos de Educação municipal, estadual ou mesmo nacional? 

Claudia Costin - É emergência! Nós estamos vivendo uma situação nunca vivida na história da humanidade. Então, naturalmente vamos atuar com uma estratégia ainda não testada. Da mesma maneira que a área da saúde teve uma série de dificuldades e ainda tem! Ninguém conhecia esse novo coronavírus. Como é que a contaminação se dá exatamente? Como é que é a melhor terapia para esse patógeno? Nós, da educação, nos sentimos também perdidos. Não é que a gente foi avisado que as crianças iam ficar X meses fora da escola. A gente nem sabe quantos meses vão ficar! Inicialmente, a gente imaginou que ia ser um período curto. O Brasil tem que olhar para soluções que estão sendo construídas por países que foram afetados antes de nós. Hoje, estamos com 190 países com escolas fechadas ou parcialmente fechadas. Todos os países que têm bons sistemas escolares - e boa parte inclusive dos que não têm - criaram estratégias que envolvem a combinação de uso de plataformas online, distribuição de cadernos com atividades e até rádio. O direito de aprender da criança está sendo considerado o mais fundamental.


SNESP - Essas diretrizes que o Conselho Nacional traçou para enfrentar essas questões realmente atendem a unidade educacional?

Claudia Costin -  Todos têm consciência que o que está sendo feito não é aula em casa, não é homeschooling, não são sequer aulas online ou aulas por televisão! É uma aprendizagem emergencial remota. Por que emergencial? Porque não é o equivalente a ter aula, foi improvisado. Onde houve formação de professores para usar a tecnologia foi emergencial, dentro do que dava para fazer. A alternativa a isso seria muito pior. Eu chego a pensar que não fazer nada seria o equivalente aos médicos e enfermeiros dizerem: “Bom, nós não estávamos organizados, não recebemos formação para isso, então, nós não vamos fazer nada”. Não! Nós da educação também fomos para a linha de frente. Nós fomos de uma outra maneira, mas fomos para a linha de frente. Do que a gente fez, tudo é bom? Não, lógico que não. É atrapalhado, porque nós não estávamos organizados, não tivemos tempo de nos estruturar. As crianças que estão em lares mais afluentes estão recebendo aulas a distância, em alguns casos até com exagero. Cinco horas de atividades para crianças de Fundamental I enquanto nossas crianças sem nada. Algo precisava ser feito. Teria sido um desastre! 

SINESP - O que é possível elaborar daqui pra frente?

Claudia Costin -  Precisamos agora pensar em uma estratégia de mitigação de danos para diminuir o aumento da desigualdade educacional, especialmente no nosso caso, da educação publica. Os estados, bem ou mal, estão conseguindo começar a fazer, acho isso louvável. Mais louvável ainda é que os diretores de escola e os professores, antes mesmo de os secretários atuarem, já estavam no Facebook, no Instagram, postando algumas aulas, algumas atividades e, sobretudo, orientando os pais, o que é fundamental neste momento. Pais não são professores, são educadores das crianças, e estão muito aflitos com o que está acontecendo. Eles estão inseguros e precisam de uma palavra de serenidade. O pai não virou professor, vai organizar o ambiente de aprendizagem para o seu filho, vai tentar estar presente acompanhando os estudos, mas não virou professor. Ser diretor de escola ou professor é muito complexo.

SINESP - No pós-pandemia, como é que os sistemas podem se organizar para a volta dos educandos? Alguns pensadores aqui no Brasil falam em fazer um ciclo duplo, juntar 2020 com 2021. Outros defendem pensar 2020 de forma alternativa, esquecendo um pouco da formalidade desse calendário. Ou o caminho seria ainda outra estratégia?

Claudia Costin -  Estou com esses que estão achando que é melhor esquecer a formalidade. Quem lida com escola publica sabe que um dos riscos que nós vamos ter no pós-pandemia vai ser o abandono escolar. Um risco brutal, especialmente dos jovens. As chances dos jovens se desinteressarem e não acharem mais sentido na escola são enormes. Além disso, não podemos atrasar a escolaridade desses jovens. Somos um dos países que têm a mais alta defasagem idade-série - ou idade-ano como a gente chama agora. Ai aumentar ainda mais a defasagem idade-ano pode ser mais um fator para afastar ainda mais esses jovens das escolas. É importante lembrar também que a seriação no processo escolar é uma pactuação social que a gente faz. Deveríamos flexibilizar isso. Cumprir essa decisão do conselho das 800 horas em vez de 200 dias e tentar montar um sistema de recuperação de aprendizagem sólido, poderoso, que possa ser trabalhado eventualmente com uma hora a mais por dia de aula ou continuar num processo híbrido, algumas horas na escola, outras em casa, repondo conteúdo.

SINESP - Vai ser a hora de fazer diagnósticos?

Claudia Costin - Eu ouvi que no estado de São Paulo vão fazer uma avaliação diagnóstica no retorno para identificar defasagens de aprendizagem em cada criança ou jovem e organizar no retorno um sistema de recuperação de aprendizagem além das horas de aula. Isso ajudaria muito. A gente precisa também documentar as aprendizagens que a gente teve. Vários professores que não estavam familiarizados com o online passaram a ter uma aprendizagem sobre isso meio na marra, infelizmente. Precisamos sedimentar esses conhecimentos novos que os professores adquiriram e também fazer uma pressão importante para que todas as escolas estejam conectadas com banda larga poderosa no futuro. Para que cada criança possa ter ou um computador ou um tablet conectados. O Brasil é a nona economia do mundo! Não podemos pensar pequeno.

SINESP - O que é imprescindível para o Volta às aulas?

Claudia Costin - O bem-estar dos profissionais e dos alunos, que foi muito mexido nesse período. A acolhida tem de ser inicialmente dos professores e outros profissionais da educação. Dessa vez, a gente vai precisar ter acolhimento até dos jovens do ensino médio e dos professores para que eles possam colocar para fora os medos, as ansiedades... Muitas coisas aconteceram nesse período, como a eventual perda de um ente querido. Morreram muitos professores pelo Brasil afora de covid. Eu mesma já sei de nove casos de professores que eu conheci. Tem muita coisa para ser olhada com atenção, com amor, antes de começarem de novo as aulas propriamente ditas.

SINESP - E educacionalmente, como será que vamos sair dessa? Qual a sua reflexão, enquanto profissional de Educação, para o pós de uma situação tão atípica?

Claudia Costin - As desigualdades educacionais vão aumentar. Uma criança que volta para o seu lar e fica fechada lá com pais afluentes, que tiveram acesso a alta escolaridade, com livros em casa, com uma série de recursos, independentemente da ajuda que o setor da educação vai dar nesse período , vai se sair em condições melhores. Inclusive porque tem uma moradia mais apropriada do que a criança que vive numa favela com um monte de gente. Para esta, a escola mandou atividades mas ela provavelmente não tinha um cantinho para fazer direito. Nos horários de lazer está muitas horas exposto a um vocabulário mais limitado. É uma realidade muito diversa daquela criança de um ambiente mais afluente. Provavelmente perdeu mais entes queridos que a outra. As desigualdades educacionais terão aumentado. Mas, mesmo para os mais afluentes, as perdas de aprendizagem não são pequenas. Vamos sair dessa situação enfraquecidos. A crise de aprendizagem já existia antes do coronavírus. Vamos ter que ter uma reação forte! Priorizar conteúdos na base nacional comum curricular. Não vai dar tempo para trabalhar tudo, teremos que ser mais seletivos. Olhar para o que dá pra ser feito! A lição que fica é que a gente precisa se preparar para contingências.

SINESP - O que não podemos esquecer em um momento como esse?

Claudia Costin - Nas crises, a gente deve construir maior solidariedade e unidade. É o momento de a Educação se unir mais, evitar brigas desnecessárias. Nos unir naquela agenda que é garantir aprendizagem de qualidade a todos, pra todos e pra cada um. Se a gente focar e evitar conflitos secundários, vamos ter saído maiores do que se a gente não aproveitasse a lição desse tempo que estamos vivendo. O mundo inteiro esta se digladiando com isso tudo. Vamos nos unir no esforço planetário para garantir que a educação construa uma geração futura com mais chances de construir um mundo mais justo do que a minha geração teve.

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